

Manifesto
A Comunidade Budista Shantideva surgiu em 2015 com o objetivo de criar um campo fértil para o florescimento dos ensinamentos budistas na região norte do Rio Grande do Sul. Sendo uma comunidade não sectária, desenvolve desde sua fundação diversas atividades com professores devidamente reconhecidos de diversas escolas budistas tradicionais. Além disso, propomos uma pauta de atividades focada na ação social consciente e baseada na promoção de uma cultura de paz, valores éticos universais, na preocupação com o meio ambiente, comunidades originais, diálogo inter-religioso e minorias sociais.
Nossa base de atuação é a visão proposta pelos ensinamentos fundamentais do Buda Shakyamuni. Suas afirmações acerca do sofrimento universal dão conta de um conjunto de ações individuais e sociais baseadas na compaixão e na igualdade, visando a criação de um ambiente social que proporciona a cada um de seus membros as condições para o pleno florescimento de suas potencialidades. A comunidade budista primitiva representa a realização fundamental desses valores. Inserida na estrutura de castas da antiga Índia, o Buda e seus seguidores estabelecem a comunidade de praticantes (sangha) sobre os alicerces da igualdade, justiça, compaixão e não-violência, abandonando as distinções opressoras baseadas no excludente sistema de organização social indiano, servindo, assim, de exemplo para comunidades futuras.
O nome da comunidade faz homenagem ao grande filósofo indiano Shantideva (685-763) que pavimentou em versos o Caminho do Bodisatva (Bodhicaryāvatāra), aquele que despertou a mente de iluminação para benefício de todos os seres. Os Bodisatvas não temem ameaças nem abandonam a fé na humanidade, dirigindo-se a todos os reinos da existência para debelar as trevas da ignorância e os venenos da mente que são a própria causa do sofrimento. Assim, para tal missão, a Comunidade Budista Shantideva estabelece quatro pilares fundamentais e interdependentes de sua atuação na sociedade: político, social, educacional e cultural.
Tendo em vista a atual situação mundial com a ascensão do novo fascismo, particularmente o desenrolar de movimentos extremistas no Brasil desde 2015, nos comprometemos em uma ação política preocupada com a manutenção da democracia e do estado de direito;
Socialmente, enfatizamos nossa atenção cuidadosa e compassiva aos desprovidos de condições mínimas para seu desenvolvimento humano (parte fundamental do Budismo), à luta pelos direitos das mulheres, ao enfrentamento do racismo entranhado em nossa sociedade e à resistência das comunidades indígenas;
Propomos programas educativos (seminários, cursos, projetos de pesquisa, grupos de estudo etc.) com o objetivo de difundir os ensinamentos do Buda como um veículo para a pacificação social, cultivo de inteligência emocional e um chamado à diversidade de pensamento;
Culturalmente, buscamos promover a tradução e publicação de textos budistas clássicos de diversas tradições. Objetiva-se, também, revalorizar, dentro de nosso contexto cultural, artes tradicionalmente associadas às culturas budistas ao redor do globo. Além disso, acreditamos que qualquer expressão cultural presente na sociedade brasileira pode ser usada como ferramenta contemplativa para o desenvolvimento pleno do humano, um meio hábil para a superação da ignorância e do sofrimento, objetivo último do Budismo.
Por fim, deixamos claro neste manifesto que a Comunidade Budista Shantideva repudia qualquer manifestação mental, verbal ou física que promova a violência ou que seja contrária aos pressupostos éticos do Budismo. Isso inclui o apoio a movimentos políticos (legitimados ou não) ligados a um histórico de desrespeito aos direitos humanos fundamentais e ao meio ambiente. Através da prática e do estudo das palavras de Buda e dos ancestrais, colocamo-nos firmemente contra o autoritarismo e a segregação, buscando o desenvolvimento dos valores democráticos do diálogo, respeito, abertura e bem estar social.
Passo Fundo (RS), setembro de 2018.